Fortaleza, minha casa

20/11 – Amanhecemos em Tauá olhando o tempo, chove ou não chove. Resolvemos que não chovia. Saímos cedo, e nem precisava. Tauá é muito perto. Apressados, nem café da manhã no hotel tomamos.

Admirei, como nunca, a vegetação típica do Tauá da minha infância, nas férias na fazenda do meu avô paterno, João Firmino de Araújo, marçon, dono de padaria e de armazém de compra de couros. Herdei dele a sua sela, o rifle 44 e o gosto pela vida no campo. Reencontrei a favela, de muitas espinhadas que já me deu nas pernas.

Que cheiro bom, na manhã nublada e fresca. A moto veio trazida devagar, desfilando nas minhas lembranças melancólicas.

Café da manhã em Boa Viagem, água e abastecimento em Canindé e logo, a entrada de Fortaleza. O trânsito confuso na Mister Hall, engarrafado na Bezerra de Meneses, na Leste Oeste, na Abolição, que sufoco, até chegar ao Náutico Atlético Cearense. Impossível não pensar no Ricardo, que desta vez não estaria lá. Mas estavam Lana, Gerardo, Passei, Ari, Andréa, Marilac, Roberto Targino, Paixão, Solange, Tânia, além dos meninos da viagem, Marcelo, Democrito e Antonio. fc4c9440128b00723af6dd50aeccf56eIMG_8593 Aí o resto é a alegria da concretização de mais um sonho. Eu, que pensei em fazer esta viagem só, quero agradecer aos meninos pelas suas companhias. Quero agradecer ao Marcelo Cavini, Henrique Câmara, Demócrito Filho e Antonio Simas, pela alegria que foi viajar com eles. Em toda a viagem, não houve um stress, um incidente desagradável, um desentendimento sequer. Isto só acontece com gente bem educada e que sabe ceder à vontade coletiva. Obrigado. Agora, eu vou pedir, para encerrar este blog, um depoimento de cada um deles, na ordem de adesão à viagem.

Marcelo: Setenta no ATACAMA foi muito mais do que cinco amigos que decidiram viajar de moto até lá comemorar os setenta anos do mais disposto e juvenil Flávio.
Foi muito mais do que conhecer lugares belíssimos, culturas dos nossos hermanos, comidas e bebidas, sentir os odores e estar dentro da pintura de cada paisagem.
Foi muito mais do que a cumplicidade de todos; mais do que compartilhar os bons e não tão bons momentos.
Foi muito mais do que rir, chorar, emocionar, contemplar, irritar e irritar-se, refletir…
Foi acima de tudo, em cada um, a superação de limites!
Superamos nossos medos, o calor extenuante, o frio irritante, a saudade da familia, a sede, a fome, o sono, o perigo de acidente.
E assim percorremos as etapas, todos sabendo e compreendendo a vitória de cada amigo, por menor que fosse.
Saimos maiores dessa viagem!
De tudo, em mim fica a saudade dos amigos e a vontade de comemorar os oitentinha do Flavio.
Mas vá devagar, Flávio, porque assim você me quebra, marrento!!!

Henrique: Viajar de moto é uma experiência diferente. Os momentos a sós consigo mesmo dentro do capacete gerando reflexões; o contato direto com o vento, a chuva, o frio, o calor; a maior aproximação com a natureza, sentindo os cheiros, “colidindo com insetos”; o enfrentamento aos perigos da estrada, com a adrenalina a mil; a sensação de superação diante do desconhecido. Vale muito a pena.

E quando nos lançamos numa grande viagem como esta, pesquisamos os lugares com antecedência, analisamos os companheiros que estarão conosco, e criamos uma expectativa sobre como será, o que veremos, e sobre a nossa convivência. No final, a história é outra.

Assim foi o que aconteceu comigo. Diante dos lugares percorridos, dos rostos das pessoas nesses lugares, no dia a dia com meus companheiros de viagem, e perante toda a dimensão da natureza, foi uma aventura transformadora e muito além das expectativas.

Fui convidado para essa viagem pelo meu amigo Marcelo. Fica minha sincera gratidão.  Tive a companhia de meu parceiro de viagens: Antonio Simas. Foi como um elo reforçado para nossa amizade e um “anjo” que esteve ao meu lado quando estava naqueles abismos imensos, e que imaginava que não superaria por causa de minha fobia. Sou muito grato a todos vocês pela força e a presença, pois achava que poderia até atrapalhar a nossa viagem por esta minha limitação. Meu amigo Demócrito, fui surpreendido com sua autenticidade, solidariedade e vontade de transpor as dificuldades. Fica pra mim uma semente de amizade que brotou. Muitos frutos virão. Por último, conheci uma pessoa que parece não ser deste mundo. Flávio Torres, um brasileiro, com todas as letras. Uma figura humana extraordinária. Fácil de se emocionar e de nos emocionar. Contador de estórias, e que estórias. Um fazedor de amizades por onde anda. Esse cara não tem as pessoas que passaram na sua vida na lembrança, mas no coração. Isso é incrível e verdadeiro. Gratidão meu amigo Flavio, por poder ao seu lado, fazer essa viagem tão bem estruturada e planejada por você. Parabéns, setenta anos bem vividos.

Ficam aprendizados, recordações preciosas, novas amizades. Após esta viagem a estrada da minha vida está com mais flores, jardins e mais ensolarada.

Até a próxima. E quando será parceiros?

Democrito: A mais remota possibilidade de conhecer o novo é motivo para pensar duas vezes se você vai embarcar no desconhecido ou permanece inerte e acomodado no seu dia a dia.

Essa foi à dualidade que desde o início me pegou na hora que decidi perante quatro “cidadãos” meio alienados com desejos semelhantes encarar o desafio de comemora 70 anos de um desconhecido (até aquele momento) pela América do Sul de moto com destino principal a São Pedro do Atacama por aproximadamente 7000 km(s) passando pelo Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai e retornando a minha pátria mãe (se ainda estivesse vivo).

Cheguei em casa após aquele “sim” torto e logo me questionei  olhando no espelho do elevador dizendo seriamente:

 Você é doido ou não tem o que se preocupar, ou os dois juntos…

Logo respondi a mim mesmo sem pestanejar

deixa de ser frouxo e vai viver o que você sempre sonhou e nunca teve coragem.

Conversa vai, conversa vem continuamos o papo entre dois íntimos, eu e eu.

Você tem um filho de 2 anos e se acontecer algo, quem vai cuidar dele? E sua esposa? E a “falta” que você vai fazer? E o velório onde vai acontecer? Será que o povo todo vai chorar desesperadamente? No velório vai ter comes e bebes? Na missa de sétimo dia quem vai continuar chorando? Depois de 30 dias, 60, 90 … 1 ano? O “fela” da “gaita” que tua esposa vai conhecer depois de tanto tempo (cinco anos depois)? Benjamin (meu filho) vai chamar de Pai? Se o cara não prestar? Vai ter algum retrato na parede para o “cabra” (o eterno outro) olhar pra mim de vez em quando? Benjamin vai lembrar-se de mim? Mamãe vai viver muito tempo depois que eu me for? Meus irmãos vão dizer o que? Os que falaram, bem que eu disse para ele não ir! Meus amigos vão relembrar e rir dos momentos hilários que vivemos juntos?

O dilúvio estava posto! Eu, naquele momento, já estava morto e bem enterrado, ninguém lembrava mais de mim, Rei morto Rei posto, o pior realmente tinha ocorrido, eu era o passado bem distante, etc, etc, etc …

A lágrima já começava a sair do olho esquerdo, discretamente… com esse turbilhão de acontecimentos nos últimos milésimos de segundos.

Naquele momento meu tipo 6 do Eneagrama* tinha aflorado como nunca. O vício emocional do medo se instalou, por isso era necessário usar o principal antídoto “falso”: a cautela! As pessoas com essas características são inseguras, intuitivas e muito atentas, não gostam de improvisos adoraram as coisas que já conhecem e o futuro incerto é assustador. Odeiam o suspense!

Lembrei-me da formação que fiz sobre o tema e os “diversos” estratagemas que nos levavam ao que escrevi acima.

Me veio à memória a saída dessas sombras negras que me paralisavam. Seja sereno, tenha calma, saia da emoção, desapegue do medo que tudo é imaginação da sua cabeça.

Logo em seguida o outro “eu” respondeu batendo o martelo em relação à tempestade maluca que veio a minha mente meio adoentada:

Não tenho dúvidas estarei nessa viagem, nada vai acontecer. Vou continuar vivo, pai do Benjamin, saudável, feliz pelas minhas conquistas, companheiro da mulher que amo, participante ativo das pessoas que convivem comigo e me aceitam, amigo dos meus verdadeiros amigos e não amigos, sempre esperançoso de um porvir virtuoso e buscando permanentemente um sorriso gratuito.

Passaram-se meses, reuniões para planejamento, dúvidas, decisões, preparativos, compras e o dia que antecedia a viagem das nossas vidas.

Não dá para relatar este sentimento pré-nupcial em palavras… Tem que viver para sentir!

O relato de como foi à jornada não farei por que este blog já faz um resumo do que vivemos. A outra, maior parte, que não está nas entre linhas deste Diário de Viajantes é impossível relatar.

Na viagem em vários momentos conversamos entre nós e nos questionávamos como iríamos relatar aos “nossos” o que vivemos naqueles 28 dias. Concluímos que não tinha o que falar, pois aqueles momentos eram únicos e não existia tradução clara e perceptível para a experiência que tivemos a oportunidade de viver e conviver.

Aqui, agora, no meu texto optei por relatar a última palavra do parágrafo anterior.Conviver, ter intimidade e viver em harmonia foi à síntese do meu aprendizado e da minha gratidão aos companheiros de jornada. Um simples agradecimento seria no mínimo uma desconsideração da minha parte, pois simplesmente não consigo descobrir uma palavra para agradecer a cada um o presente que a vida me oportunizou.

Simas – Uma deliciosa e despretensiosa descoberta por sua autenticidade, companheirismo, solidariedade, coragem, complementariedade e sobretudo uma nova amizade que acredito ter ganho para todo o sempre. Meu muito obrigado!

Henrique – A criatura mais atenciosa, simpática, complementar que conheci nos últimos anos. Sabe o que é um desafio de verdade, só ele compreende o que viveu. A paciência é uma virtude. Um privilégio ter oportunidade de fazer parte de sua vida. Espero estar no seu ciclo de convivência. Para mim será um prazer. Meu muito obrigado!

Marcelo – Quem eu tinha mais proximidade. Devagarinho ao longo dos anos nos aproximamos em uma conexão que se aprofunda lentamente em uma relação de irmãos, se assim ele permitir. Foi ele quem me convidou e instigou a enfrentar o desafio. Um homem de coração bom. Meu muito obrigado!

Flávio – Da onde veio esse cidadão que eu não conhecia antes meu “Deuso”? Sabe aquelas pessoas que não dá para não conhecer antes de morrer? Ponto “(.)” para ele tem que ser encima de um “i” ou no final de uma frase e ponto final. Cri cri, detalhista, duro, direto, “pontual”, perfeccionista, não leva desaforo pra casa, quando fica bravo sai da frente parece um “homi” de verdade, tem que ser do jeito dele, e se não, quem decide é ele fazendo com que outros acreditem (tenham certeza) que não foi ele. Mas tudo isso é uma casca, pois no fundo ele tem muito amor, delicadeza, suavidade, sensibilidade e serenidade. Quando ele canta… canta com olhos… nunca vi isso … a voz é coadjuvante!  Ele é um homem que chora facilmente o qual me deixou muito emocionado por que eu não choro. Quando ele chorava na viagem eu depositava um pouco das minhas lágrimas nas dele. Com um determinado tempo cheguei à conclusão que nossa relação vem de outras vidas. Não sei explicar direito, mas é isso. Na realidade eu me dei muito bem com ele, não sei se ele comigo. Com ele tive uma experiência única, coisa de macho! Precisava tomar uma injeção, não tinha como e perguntei:

 – “tu tens coragem de respeitosamente me aplicar uma injeção?”

Ele: “nunca fiz isso não mas vira aí que faço um quadrante e mando a picada”

Eu: “Quadrante”? Picada? Eu queria apenas aplicação de uma injeção de complexo de vitamina B.

Ele: “Baixa as calças e deixa de medo macho”

Eu cuidadosamente baixei uma banda da calça sem muitas possibilidades de olhares de um ângulo físico diferente fechei o olho e deixei o outro aberto olhando pelo o espelho, trinquei os dentes e…

– “ hummmmm”

Agradeci pela coragem ele fez a mesma coisa e mudamos de assunto rapidamente.

 Acho que foi daí que tudo mudou!

Ao Flávio, meu muito Obrigado.

Quando combinamos cada um escrever seu relato de viagem isoladamente sem o outro ter conhecimento da percepção silenciosa e singular do que foi vivido tinha um objetivo claro, não influenciar os demais, pois queríamos finalizar nossa trajetória como a degustação de um autêntico vinho “AlmaViva” … descansar, parar, dividir em cinco, esperar, olhar, apavorar (os bons entenderão)cheirar, balançar, erguer, não acreditar, sorrir, entre-olhar, bicar, celebrar, aveludar, sentir, apreciar, diferenciar e principalmente amar.

Meu muito obrigado à vida.

Antonio: A vida é cheia de escolhas….a mais recente e das mais difíceis de tomar foi embarcar nesta aventura.

Foram dias incríveis ao lado de quatro bravos parceiros, amantes das duas rodas e da arte de viver. Pessoas admiráveis e marcantes cada um do seu jeito. Aqui agradeço o companheirismo, o apoio e a compreensão de cada um. Um especial agradecimento ao Flavio, mentor e “dono” da viagem, que gentilmente compartilhou conosco o sonho de comemorar seu aniversário no Atacama e fez dessa viagem uma realidade.

Agradeço também a minha família, principalmente a minha esposa, incentivadora incondicional desta viagem e que me apoiou nas decisões que tomei pra que pudesse realizá-la.

Viajar de moto é simplesmente sensacional: o vento, o cheiro, a sensação de liberdade, o coração batendo mais rápido e o sentimento inigualável de estar vivo.  Terminada a jornada fica um imenso vazio, a saudade de cada momento, a lembrança de cada detalhe, de cada sorriso e de cada momento de superação. Fica também a certeza de ter escrito o que sem dúvidas será uma das mais belas páginas no livro de minha vida.

Abraços, Simas.

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Tauá

19/11 – Um detalhe, que eu só soube hoje, quando me levantei. Todas as piscinas do hotel estavam vazias e já enchendo. Eles têm dois conjuntos de duas piscinas cada, um exclusivo para os hóspedes e outro lá fora, para o público da cidade. Como a água não é tratada, todas as noites as piscinas são esvaziadas e cheias pela manhã. Estimei em uns 150.000 litros/dia, jogados fora. Já pensou? Logo depois da saída da cidade, o poço Violeta, um tufo d`água jorrando, que sobe a uns 4 metros de altura, também jogando água fora. Coisas de Brasil.

Saímos às 5:30, sem café, para rodarmos os 560 km até Picos. Acho que nós devemos ter passado por 1.553 lombadas. Só na travessia de Cristino Castro tem 12 delas. E assim, qualquer povoado ou conjunto de mais de três casas, tem os seus.

Como amanheceu sem chuvas, resolvemos vestir só as calças, já que a blusa é bem mais fácil de vestir. Rodamos até Oeiras, com lombadas, mas sem chuvas.  Como estava muito quente, resolvemos tirar as calças. Foi só tirar e o tempão apareceu. Paramos e vestimos tudo. Entramos em Picos debaixo de chuva, mas tudo bem administrado, sem riscos, e resolvemos esticar até Tauá, mais 200 km. Aprendemos que levantando um pouco a cabeça, circula dentro do capacete uma corrente de ar que desembaça a viseira. Aprendemos a dominar a chuva.

Tenacidade e determinação forjam-se no curso da caminhada. Andamos 770 km sob chuvas e lombadas, e chegamos a Tauá com disposição para mais, se preciso fosse.

Assim que cheguei, antes mesmo do banho, fui ver as minhas tias, que moram aqui em Tauá, terra das minhas férias da infância. Depois fui ver meu amigo Jacaré, que tá meio baleado. Teve um derrame e a comunicação está muito prejudicada. Mesmo assim levei-o para comer um bode assado. Como não tinha bode, o que é um verdadeiro absurdo, comemos carneiro na brasa. Tava muito bom.

Entrei em Tauá vendo a Serra do Kinamuiú de costas, eu que sempre a vejo de frente. Por estas bandas ainda não vi uma Favela, a árvore que caracteriza as matas desta região, com as suas folhas  cheias de espinhos, que irritam e coçam como urtiga e cansanção.  A Favela, tem aqui nos Inhamuns e também na Bahia, na região de Canudos. Um detalhe: do morro da Favela, a partir do qual o exército bombardeou, de canhão, o Conselheiro e sua gente, surgiu o nome que batiza moradias em morros no Rio de Janeiro e no Brasil todo.

Chegada em Tauá
Chegada em Tauá

Amanhã temos a última perna da viagem. Está quase terminando a viagem que eu me dei de presente de aniversário.

Cristino Castro

18/11 – Em Barreiras, choveu a madrugada toda. A maior prova disto é que o meu termômetro chinês estava cheio d`água e o GPS do Henrique acendeu novamente. Ele só liga com água, e só se for muita! Como somos dois teimosos, saímos sem as capas de chuva. Tínhamos escapado na véspera e achamos que a sorte poderia se repetir. Já saímos neblinando, mas era só uma garoa. Foi indo, foi indo, e abriu-se um dia lindo, claro, mas sem sol.

A gente estava começando a admirar a transição entre o serrado e uma mata mais arbórea, com muitas palmeiras de buritis, como as matas do Maranhão, quando o bicho pegou. Pegamos um pau d`água daqueles, de encher riacho. Se fecha a viseira do capacete, embaça e não enxerga nada. Se abre, molha os óculos, molha a viseira por dentro e também não enxerga nada. O jeito é parar.

Paramos num posto para o desjejum, já encharcados. A chuva diminuiu e a gente resolveu só vestir a parte de cima da capa. Saímos com a disposição de passar de Cristino Castro, tentando alcançar Canto do Buriti, 200 km mais adiante. Aí foi que a chuva veio, longa, grossa. Entramos na cidade de Bom Jesus com verdadeiros riachos cortando uma BR urbana maltratada, cheia de altos e baixos, muita lama, o povo todo a olhar aqueles dois malucos naquela tempestade.

Voltamos ao plano 1 e paramos no Gurguéia Park Hotel, com suas piscinas de água corrente, não tratadas. Água aqui no vale do Gurgueia é um estrago. Os poços jorrantes passam, o que ainda lhes resta de vida, o tempo jogando fora o que foi acumulado em anos, rebaixando o lençol de toda a área. Só vendo para crer.

A BR 135 baiana é ótima, larga, com acostamento, e muitas vezes uma terceira faixa para facilitar o tráfego. A mesma BR piauiense é uma lástima. Estreita, sem acostamento, esburacada, irregular, cheia de mondrongos, sem sinalização, uma tragédia. Já estou sonhando com as estradas do Ceará. O problema vai ser vestir amanhã aquelas roupas geladas, espalhadas no quarto com o ar condicionado digno do Marcelo, bem frio, pra ver se seca alguma coisa.

Cristino Castro
Gurgueia Park Hotel

Barreiras

17/11 – Tomamos café às 6:00 e pouco antes das 7:00 estávamos na estrada. Impressiona o fluxo de veículos na direção de Brasília, tão cedo. São quase 40 km de tráfego contínuo, em duas ou três faixas, e, em muitos pontos, engarrafamento total. Que loucura! A nossa mão, saindo de Brasília, estava livre total.

Pouco depois das cidades satélites, passamos por um laranjal, com o cheiro da flor da laranja perfumando o mundo todo. Deu vontade de parar. Lembrei-me do tango “Naranjo en flor”, de Virgilio e Homero Expósito. Que coisa deliciosa.

Mantivemos uma média alta na viagem e chegamos ao nosso destino um pouco antes das duas da tarde, após rodar quase 700 km, pra variar, com sede e fome. Antes de matar a fome, tomamos um banho no “Rio das Ondas”, que passa na frente do hotel “Chalés dos Buritis”. Como choveu muito por aqui o rio está correndo solto, com correnteza, água barrenta, de fazer inveja a qualquer quixadaense. O detalhe é que passamos a viagem quase toda escapando de alguma chuva, e com a pista todo tempo molhada. A chuva ia na nossa frente e a estrada foi se desviando dela. Chegamos absolutamente enxutos.

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O Henrique está impressionado com a imensidão dos campos de algodão e soja plantados nesta região. Chega fica monótono, onde a vista alcança.

Comemos mais um surubim grelhado, com vegetais.

Brasília

15/11 – O café da manhã do hotel Beira Rio, em Itumbiara, merece registro. Um festival de frutas e opções quentes, pense num desjejum completo. Isto com a vista maravilhosa do rio.

Dia nublado, mas sem chuva e a estrada duplicada. Fizemos os 440 km em 5:30 horas, incluindo uma meia hora de parada na saída de Goiânia.

Você vem em uma BR duplicada, com a velocidade máxima permitida de 100 km/h, chega nas imediações de Goiânia e é como se chegasse em Guaiuba. São 25 km de engarrafamento e de sensor de velocidade, onde a máxima é de 40 km/h. O mesmo se repete em Anápolis, em uma distância menor, claro. Há de se fazer um desvio destas cidades, até Quixadá tem um desses.

Chegar em Brasília me causa uma estranha sensação de chegar em casa. Não pelo pouco tempo que a política me trouxe até aqui, mas pelos quatro anos que eu morei. Aqui me casei, comecei a criar o meu primeiro filho, fiz o Mestrado, lecionei na UnB, publiquei meus primeiros trabalhos científicos, enfim, vivi muita coisa nesta cidade. Além do mais, aqui não fiz só amizades, fiz verdadeiras irmandades. Avistei Brasília me lembrando do Zé Acioli e do Homero Chaib, que já partiram para a eternidade. Como seria bom encontrar o Homero, bem velhinho, com aquele sotaque de paraense carregado, me recebendo em sua casa como quem recebe um príncipe. E o Zé, com aquela doidice linda que ele tinha, e a infinita bondade. Chorar de capacete é horrível, o mundo fica embaçado mais tempo.

Chegamos no hotel, banho, roupa limpa e fomos para um sábado em Brasília. Primeiro o Wilson Ibiapina, que bebia me esperando desde as onze horas e nós só chegamos às duas da tarde. Tava melado que só espinhaço de pão doce! Por lá já tinham passado vários amigos, que o Piabinha havia chamado para me encontrar, mas tinham ido embora. Comecei logo tomando uma cachaça, para abrir o dia, e depois cerveja, que é a minha praia.

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Quando chegou a fome mesmo, pegamos carona com um amigo do Piabinha, também cearense. Olhe, foi o maior risco que nós corremos em toda a viagem. O bicho também estava melado, quase batia em uma mureta de estrada, veio trancando o povo de lá até cá, e eu agarrado no “ferrinho da moral”, com o cinto bem apertado.

Fomos almoçar no Tempero Mineiro e esperar o Paulinho, para lá assistirmos uma apresentação  de um grupo goiano que toca samba. Samba mesmo, Noel e outros bichos da mesma fauna.

A comida lá sempre foi muito boa, e continua, mesmo depois da morte prematura do Jorge, cunhado do Paulinho. Comemos um pernil de porco com tutu à mineira, torresmo e tudo, muito bom. Lá pelas tantas chega o Paulinho, do bar que ele tem em Águas Claras, já bem troviscado, para o nosso segundo risco na viagem…

O show, muito bom, a começar pela composição do grupo: violão de 7 cordas, cavaco, dois ritmistas,  cuíca e trompete, que fazia os solos. Os arranjos das músicas bem trabalhados, vocal de várias vozes, e um pessoal bem jovem. Na mesa uma jovem e bonita cantora, acompanhada do marido, e uma amiga de Palmas. Três da manhã, foi a hora do pouso dos guerreiros.

16/11 – Dia de café tarde e descanso. Almoço na carne de sol da 111 sul, do Ronaldo, de Caicó, que eu conheço desde o tempo em que o Bira morava vizinho e eu era um hóspede quase mensalista. O Baixinho não estava, nem o Ronaldo. Encontrei o Zé de Joca, de Limoeiro, gordo que parece que vai papocar. Ele trabalhou com o Bira muitos anos e agora é garçom no restaurante.

Tarde de mais sono, jantarzinho de leve no Shopping Brasília, aqui vizinho e chega por hoje.

Itumbiara

14/11 – O dia amanheceu mesmo todo atrapalhado. Perdemos a hora, acordei com a barra do dia já clareando. Chamava o Henrique, acendi a luz e o homem nada, sono profundo. Tomamos um suco e um sanduiche que a comadre do hotel tinha dado à noite e pé na estrada.

Erramos. Não, errei. Tinha visco à noite que a estrada não passava em Araçatuba. E vi na placa São José do Rio Preto/Araçatuba. Voltamos e andamos 20 km na Raposo Tavares, indo para São Paulo. Mais 20 km para voltar, andamos 40 km de graça.

A Rodovia Assis Chateaubriand não é duplicada mas em quase toda subida longa criam uma terceira faixa para o tráfego lento. O problema é que alguns não se consideram tão lentos e sempre tem caminhão ultrapassando caminhão. E é muito movimento, muito caminhão. Tem hora que parece a Praça do Ferreira!

A viagem estava linda, fresquinha, demos a primeira pernada de 230 km, depois outra de 170 km, aí comecei a ver umas nuvenzinhas. Tinha uma já desfiando à nossa esquerda, quando a estrada se curva e vai direto nela. Todos molhados de novo! Paramos num paradouro da empresa concessionária da estrada (aqui no sul é todo tempo pagando pedágio) para botar a capa de chuva. Tinha até cafezinho com bolacha e gente simpática. Equipamo-nos e o pau cantou. Eu ia na frente e fiquei um tempão atrás de um caminhão, pegando carona, tendo um referencial, mas nas subidas ele ia muito devagar. Ultrapassei-o e o Henrique também. Acho que andamos mais de 20 km no cacete, pingo grosso, visibilidade quase zero. Tinha momentos em que eu não via mais a luz do Henrique atrás e a estrada só ficava bem delineada quando cruzava com algum tráfego. Dia de trincar os dentes e continuar. Depois limpou e continuamos. Diminuí a velocidade para consultar sobre a próxima parada e o Henrique passou à frente. Lá veio outra chuva e ele teve o seu batismo de água, indo na frente. Viu com quantos paus se faz uma jangada!

Depois do acesso a Uberlândia, onde estão construindo um Trevão, é um movimento só, filas e filas de carros, uns atrás dos outros. Ainda bem que a estrada, neste trecho, já é duplicada.

Quem anda por terra no Rio Grande do Sul, depois no Paraná, São Paulo e Minas Gerais, chega no Ceará com vontade de aconselhar o povo a mudar de ramo, esquecer esse negócio de agricultura e Pecuária. É muito desigual!

Atravessamos o Rio Paranaíba , entramos em Goiás, e chegamos ao hotel Beira Rio, um prédio cilíndrico, de arquitetura ousada, todo equipado com piscina, sauna, restaurante e estacionamento coberto. Já comemos o nosso “Surubim na chapa” com vegetais, umas cervejas para reidratar e cama, que amanhã tem mais.

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Hotel Beira Rio

Presidente Prudente

13/11 – Hoje, vimos o sol nascer vermelho nos campos verdes do Paraná. Temperatura nos 19, estrada duplicada na saída de Foz do Iguaçu, uma beleza. Depois de uns 80 km rodados, comecei a ver um esfumaçado, e não deu outra, era uma neblina daquelas de não enxergar um palmo na frente do nariz. O irônico é que a neblina pegou mesmo em frente a um povoado de nome Céu Azul. Peguei carona num Gol branco que ia na minha frente, mas ele corria demais e ainda mais, com luz apagada. Foi virando só uma mancha e desapareceu. Tive de reduzir a velocidade e ai, sem referencia nenhuma, pra gente que não é acostumado, é muito assustador , de repente, aparecer aquele  caminhão a uns 50 m de distancia , quando a estrada é apenas um vulto mal delineado. Felizmente, sofremos um pouco mais de 1 hora, o sol foi esquentando, a neblina resistindo só nos vales e limpou, esverdeando o mundo todo.

Passei essa viagem toda escapando de me chocar com pássaros. Hoje uma pomba rola entrou mesmo na minha testa. Uma porrada como se alguém enchesse a mão espalmada no capacete. Perguntei ao Henrique, que vinha atrás, se ele tinha visto alguma coisa e ele disse que viu só o penaral no mundo, muita pena, segundo ele. Tem uma dorzinha no pescoço me acompanhando, amanhã passa.

E tome obra de duplicação de estradas, aqui e acolá tendo de parar, quando a estrada só tem uma mão.

Chegamos aqui com 8 horas de estrada. Um calor! Como tinha previsão de chuva, eu acabei saindo já vestido com as calças da capa, vinha queimando tudo aqui por baixo.

Foi entrar no hotel, tomar uma banho e sair `a procura de um bom lugar para almoçar. Pesquisamos no hotel, na net, e fomos procurar o Taquino, um restaurante muito recomendado. Estava fechado. Olhei numa varanda e tinha um cidadão sentado. Perguntei a que horas ia abrir, parece que ele era meio surdo, não ouviu e veio até o portão para ouvir. Disse que só abriria `as 5 horas. Como já eram 4:15, na conversa mole, acabamos o convencendo a deixar a gente ficar tomando  cerveja na casa até abrir. Comemos uma massa maravilhosa. Ele se chama Paulo, é o dono, e conversou conosco o almoço todo. Simpático, tirou-nos essa foto.

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Restaurante Taquino